Emergência

Hipoglicemia: como reconhecer e o que fazer na hora

Os sinais que o corpo dá, a regra dos 15 explicada sem enrolação e o que fazer quando a pessoa não consegue mais engolir.

· 7 min de leitura

Hipoglicemia é quando a glicose no sangue cai abaixo do nível seguro. Para a maioria das pessoas com diabetes tipo 1, o alerta começa por volta de 70 mg/dL, e abaixo de 54 mg/dL a situação já é considerada grave. Quem convive com isso sabe: a queda não avisa com antecedência e quase nunca escolhe uma hora conveniente.

Este guia é para ser lido antes de precisar. Salve, mande para quem mora com você e para quem trabalha ao seu lado.

Em resumo
  • Sinais clássicos: tremor, suor frio, coração acelerado, fome súbita, visão embaçada, irritação sem motivo.
  • Tratamento: 15 g de carboidrato de absorção rápida, esperar 15 minutos, medir de novo.
  • Se a pessoa estiver desacordada ou convulsionando: não dê nada pela boca. Chame o SAMU (192).
  • Depois que normalizar, coma algo com carboidrato mais lento para não cair de novo.

Como o corpo avisa

Os sinais aparecem em ondas e nem sempre na mesma ordem. Os mais comuns:

  • Tremor nas mãos e nas pernas
  • Suor frio, principalmente na nuca e nas costas
  • Coração disparado
  • Fome que surge do nada e parece urgente
  • Tontura, cabeça leve, visão embaçada ou dupla
  • Formigamento nos lábios ou na língua
  • Irritação, choro fácil, dificuldade de raciocinar ou de achar palavras
  • Palidez

Em criança, o sinal costuma ser comportamental antes de ser físico: fica quieta demais, birrenta demais ou simplesmente "estranha". Quem convive percebe.

À noite os sinais são traiçoeiros, porque o sono abafa tudo. Suspeite se você acordar com o pijama encharcado, com dor de cabeça, com pesadelo intenso ou com a glicemia alta ao acordar sem explicação.

Atenção

Hipoglicemia assintomática. Quem tem hipoglicemias frequentes pode ir perdendo a capacidade de sentir os avisos, e passa a cair sem nenhum sintoma. É uma situação de risco e precisa ser conversada com o seu endocrinologista, porque geralmente exige ajustar metas e tratamento.

A regra dos 15, passo a passo

É o protocolo mais usado no mundo inteiro justamente porque cabe na cabeça de qualquer pessoa numa hora de aperto.

  1. Meça, se der. Se não der para medir e você tem certeza dos sintomas, trate assim mesmo. Tratar uma hipoglicemia que não existia é bem menos grave que deixar uma existir.
  2. Tome 15 g de carboidrato de absorção rápida. Exemplos: 1 sachê de glicose em gel, 3 a 4 tabletes de glicose, 150 ml de suco de laranja ou refrigerante comum (não diet), 1 colher de sopa de açúcar ou de mel.
  3. Espere 15 minutos. É a parte mais difícil. A vontade é comer tudo que estiver à mão, e é aí que a glicemia dispara para o outro lado.
  4. Meça de novo. Se ainda estiver abaixo de 70, repita os 15 g e espere mais 15 minutos.
  5. Depois que normalizar, se a próxima refeição estiver longe, coma algo com carboidrato de digestão mais lenta e um pouco de proteína, como pão com queijo. Isso é o que segura a glicemia até a refeição seguinte.

O que não funciona bem

  • Chocolate, sorvete, biscoito recheado. A gordura atrasa a absorção do açúcar. Serve para o gosto, não serve para a emergência.
  • Refrigerante diet ou zero. Não tem açúcar nenhum. Confira o rótulo antes de guardar na bolsa.
  • Comer sem parar. A hipoglicemia dá uma fome que não desliga sozinha. Meça antes de continuar comendo.

Quando a coisa é grave

Se a pessoa está confusa a ponto de não cooperar, desacordada ou convulsionando, isso é hipoglicemia grave e o protocolo muda:

  1. Não coloque nada na boca. Nem líquido, nem gel, nem açúcar. O risco de engasgo e aspiração é real.
  2. Vire a pessoa de lado, em posição de segurança.
  3. Ligue 192 (SAMU).
  4. Se houver glucagon prescrito e alguém treinado por perto, aplique conforme a orientação médica.
  5. Ao recuperar a consciência e conseguir engolir com segurança, ofereça carboidrato.

Como se preparar antes

Hipoglicemia se resolve melhor com preparo do que com reflexo. Três coisas mudam o jogo:

Carboidrato rápido sempre com você. Não no armário da cozinha: na bolsa, na mochila, no carro, na gaveta do trabalho. Se está longe da sua mão, não existe.

Alguém informado por perto. Colega de trabalho, professor, treinador, vizinho. Uma conversa de dois minutos explicando os sinais e onde está o açúcar já resolve a maior parte dos casos.

Uma forma de falar por você quando você não puder. Esse é o buraco mais comum. Se você cai na rua, quem chega primeiro não sabe que você tem diabetes, não sabe o seu tipo sanguíneo e não sabe para quem ligar.

Por que a hipoglicemia acontece

Entender a causa é o que evita a próxima. As mais frequentes:

  • Dose de insulina maior do que a refeição pedia
  • Refeição atrasada, pulada ou menor que o previsto
  • Exercício físico sem ajuste de dose ou sem carboidrato antes
  • Bebida alcoólica, principalmente com o estômago vazio, porque o efeito pode aparecer horas depois
  • Aplicação em local com lipodistrofia, que muda a absorção de forma imprevisível

Anote o que aconteceu antes de cada episódio. Depois de algumas anotações, o padrão aparece sozinho, e é esse padrão que a sua equipe de saúde usa para ajustar o tratamento.

Perguntas frequentes

Qual é o valor exato de hipoglicemia?

O ponto de alerta mais usado é 70 mg/dL, e abaixo de 54 mg/dL a hipoglicemia é considerada clinicamente grave. As metas de cada pessoa podem ser diferentes, e quem define isso é a sua equipe médica.

Posso tratar hipoglicemia com chocolate?

Não é a melhor escolha. A gordura do chocolate atrasa a absorção do açúcar, justamente quando você precisa de velocidade. Prefira glicose em gel ou tablete, suco ou refrigerante comum.

O que fazer se a pessoa desmaiou por hipoglicemia?

Não ofereça nada pela boca, vire a pessoa de lado, ligue 192 e, se houver glucagon prescrito e alguém treinado, aplique conforme a orientação médica.

Hipoglicemia à noite tem sinal diferente?

Muitas vezes passa despercebida no sono. Suspeite se você acordar suando, com dor de cabeça, com pesadelos ou com glicemia alta pela manhã sem explicação, e leve isso ao seu médico.

Preciso comer de novo depois que a glicemia normalizar?

Se a próxima refeição estiver longe, sim. Um lanche com carboidrato de digestão mais lenta ajuda a evitar uma nova queda logo em seguida.

Conteúdo informativo produzido pela equipe da Minha Vida Nada Diabético, que convive com diabetes tipo 1. Não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento. Converse sempre com o seu médico ou a sua equipe de saúde antes de mudar qualquer conduta.

Do texto para a prática

Quem escreve também fabrica.

Cada guia daqui nasceu de um perrengue que a gente resolveu com uma peça na oficina. As soluções estão na loja.